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032 - Minhas três mulheres

Recife: a mãe que, apesar de ciumenta, me criou pro mundo. Seu maior prazer é se iludir achando que voltarei a morar com ela toda vez que a visito nos feriados. Proibe que o nome de São Paulo seja pronunciado sob seu teto. Olha para o Rio com leve simpatia. 

 

São Paulo: interessante, intelectual, mas fraca das feições. É a mulher com a qual me casei por interesse social e equilíbrio financeiro. Ciente de sua situação, tenta comprar meu amor com mimos diários. Faz vista grossa pras minhas escapadinhas com o Rio, na certeza que sempre irei voltar pra casa. Finge que Recife não existe.

 

Rio de Janeiro: a amante fogosa que derrete minhas retinas com tanta fartura de beleza. Adoro elogiar suas formas com fotos e poesia, mas no fundo sabe que nunca será realmente levada a sério. Faz de tudo pra se aproximar de Recife e queimar o filme de São Paulo comigo.


031 - Eu-ovelha

Sonhei que era uma ovelha puladora de cercas dentro do meu próprio sonho, onde não podia descansar, dormir muito menos, porque isso acarretaria na minha morte dentro deste sonho, que contaminaria de forma tão traumatica a realidade, ocasionando o óbito também nela, assim, de forma irrefreável, o eu-ovelha era refém e algoz do eu-humano, que curtia um bom sono após anos, não querendo mais acordar para o mundo cinza.


030 - Sobre os universos paralelos

Comecei a acreditar na teoria dos universos paralelos individuais quando percebi a olhos vistos como eles nascem, ganham massa e começam a pulsar sempre que um sorriso descompromissado é entregue sem pedir nada em troca nas horas mais divergentes do seu dia, como nas madrugadas roubadas ou até no meio de uma nuvem de cannabis em pleno Parque da Aclimação, agindo feito mísseis teleguiados que miram as retinas mas acertam mesmo é no coração.  


029 - Sábados

- Então, freguesa? O que vai levar hoje?

- Quero 250g de sorrisos. Mas tá sincero, moço?

- Claro. Os amarelos nem chegam perto do balcão. Vamos, prove um pedacinho.

- Hum… que delícia!

- Não falei? Por que você não leva logo meio quilo?

- Tá bem, meio quilo. Mas esse é do light, né?

- Freguesa, meus sorrisos são todos integrais, sem corantes ou conservantes. Pode levar sem medo que eles só engordam a alma.

- Vou confiar em você, hein?

- Pode confiar. Mais alguma coisa?

- Você tem alguma sugestão de acompanhamento?

- Sábados. Harmonizam bem com todos os tipos.


028 - Dúvida

Ela entra na minha casa sem ser convidada, mistura minhas roupas, suja o banheiro, bagunça a sala e não dá sinais que vai embora tão cedo. Eu apenas observo, imóvel, esperando que ela se canse do barraco. Então me vê, para, e vem em minha direção: isso é até quando? Nem pisco: é para sempre. E ela desaparece.


027 - Janela

Helicópteros não passam de mosquinhas azucrinadas tentando pousar em grandes costelas de concreto para depositar seus ovos que vão ajudar a apodrecer a cidade e os  engarrafamento são lindas árvores de natal que piscam nas cores amarela e vermelha fazendo da avenida, feia de dar dó, até parecer um cenário propício para o próximo primeiro encontro.


026 - Saudades

Das memórias perdidas em meio aos pensamentos, onde meus beijos e abraços ainda eram próximos da sua pele que, quando aquecida, exalava algo só encontrado também nos sonhos bons, vindos quando não pensava nada ser mais importante do que fazê-la única diante de todas as outras meninas.


025 - corporativo

Eu imaginaria uma realidade paralela onde os lixeiros das firmas funcionariam como buracos de minhoca entre as mesmas, ou seja, ao jogar uma casca de banana fora no escritório de San Francisco ela apareceria em Mumbai para o espanto dos incrédulos indianos, que ainda teriam seus dias alterados por milk-shakes suecos, damascos turcos e pelas cópias xerocadas dos livrinhos que Carlos Zéfiro desenhava e escrevia.  


024 - Ponteiros

O que era apenas desconfiança desandou rapidamente para um ódio declarado contra aqueles três irmãos, começando pelo pequeno e gordo que era implacável em sua lentidão, o do meio pela irritante arrogância helvética e chegava ao ápice no caçula da família: mais novo, alto e esbelto, que corria como um atacante imarcável azucrinando minha defesa, puxando os outros nesta guerra, que eu já sabia, nunca poderia vencer.


023 - Telefunken

Liguei no canal 4 e me vi, aos 12 anos, ganhando desajeitadamente meu primeiro beijo da garota cujo nome nunca soube, mas que está devidamente catalogada como uma das muitas que acabei desenvolvendo paixão platônica. No 46 passava em câmera lenta o momento em que meus amigos do colégio raspavam minha cabeça logo após ter sido divulgada a lista de aprovados para o vestibular de jornalismo do ano de 1997. Zapeando até o canal 142, me espantei com a narrativa poética da rede estatal japonesa sobre imagens minhas em uma emocionante disputa de tênis-de-mesa na casa de campo da família contra um adversário que, segundo a lógica nipônica, era potencialmente letal: meu avô.


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